Eu

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do intersecionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu gênio e na divina consciência da minha missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu gênio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.

Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.

Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de lançar o intersecionismo — a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.

Fernando Pessoa
Img: “Christmas Card”M. C. Esher

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Sobre Daniel Leite

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